A hora do Moovit!


A Intel comprou o Moovit, o aplicativo de informações de mobilidade urbana, por US$ 900 milhões nesta semana. Nas lentes do Morse isso significa duas coisas, 1: que essa é mais uma grande da tecnologia investindo pesado em big data (de mobilidade, inclusive!) e 2. o Ghost Interview da semana não tinha como ser sobre outra coisa. Desta vez, o entrevistado é Nir Erez, cofundador e CEO do Moovit.


Lançado em 2012, o Moovit tinha um único objetivo: unificar os dados de transporte público de Israel em um único espaço. Quando foram migrar para outras localidades, eles perceberam que faria mais sentido pedir a contribuição dos próprios moradores e usuários do aplicativo. Sim, você já leu sobre esse tipo de tecnologia. Inclusive de um “conterrâneo” (e depois parceiro, olha só) do Moovit: o Waze. A diferença grande é que o Moovit optou por deixar os modais de transporte abertos. Com o passar do tempo eles chegaram a algumas centenas de milhões de usuários (em fevereiro, já eram 720 milhões), ou seja, a capacidade de análise e previsão aumentou, já que a entrada de dados foi também maior, eles começaram a firmar parcerias com as grandes como Microsoft, TomTom, Uber e a Intel - que foi investidora e depois... A gente viu o ciclo se fechar essa semana. No meio tempo, Erez conta a história para gente:



MORSE: Nir,  conta para a gente como foi que começou o Moovit e por que acabaram migrando para o modelo de compartilhamento de dados com o usuário?

Nir Erez: Nós começamos querendo resolver um problema bem específico que eram os dados de transporte público para o usuário. Queríamos responder para o usuário como chegar de um ponto A até um ponto B usando o ônibus, sem perder tempo e sabendo exatamente quando o transporte estaria ali. Era um problema real, as pessoas não tinham muita informação sobre onde pegar o ônibus, onde passavam certas linhas. 

Acontece que a camada de informação que as pessoas tinham ainda não era o bastante. Há uns cinco ou seis anos atrás, apenas 15% das cidades do mundo tinham esse dado digitalizado. Isso era um desafio para a gente. O que aconteceu foi que tivemos que construir o aplicativo e também o dado para dar suporte para o seu funcionamento. 

Quando começamos o app, Tel Avivi foi nossa primeira cidade. A próxima que iríamos seria Madri. Pelos nossos cálculos, para a gente poder operar em Madri, três ou quatro engenheiros teriam que ser destacados apenas para captar os dados, e ficaríamos muitos meses apenas para construir essa operação, sem nem lançar. Não tinha como escalar se fosse assim. Então, meu cofundador, que é uns 20 anos mais novo que eu e muito mais inocente, apenas levantou a possibilidade de convidar os usuários a dividir os dados com a gente, como na Wikipedia. Eu não fui muito fã da ideia e nunca imaginei que poderia dar certo, mas tentamos e acabou dando certo. E deu certo como mágica.

Em pouco tempo, conseguimos treinar milhares de usuários e “editores”. A maioria deles é focado em suas regiões. Isso nos deu a capacidade de ser hiperlocalizados e também em tempo real, já que os usuários também mantêm os dados atualizados - o que é de extrema importância no caso do transporte público, já que há sempre mudança de locais de ponto de ônibus e interferências em linhas. 

Fonte: Entrevista ao “Fast Forward with Dan Costa” da PC Magazine em 17 de dezembro de 2018


MORSE: Vamos a duas perguntas, como vocês se diferenciam do Waze? E qual foi o modelo de negócios seguido por vocês desde 2012 até a aquisição da Intel?

Nir Erez: O Waze e o Moovit foram projetados com objetivos diferentes. O objetivo do Waze era desenvolver um mapa, enquanto o nosso deveria desempenhar um papel importante na mobilidade urbana. Acredito que o transporte público se tornará essencial em nossa vida cotidiana nos próximos anos. Os futuros carros autônomos provavelmente serão regulados da mesma maneira que o transporte público. As cidades serão responsáveis ​​por definir seu número e o preço das viagens. Nosso objetivo será, portanto, ajudar essas cidades a estabelecer seus futuros sistemas de mobilidade que integrarão todos os meios de transporte, incluindo esses veículos autônomos.

Nos primeiros cinco anos, seguramos o negócio com o apoio de nossos investidores, optamos por focar em nosso produto e em nosso crescimento internacional. Só começamos a monetizar o Moovit em 2017, optando por um modelo B2B. Assim, obtemos nossa receita com a venda de nossos dados para cidades e operadores de transporte privado por meio de nossa oferta chamada MUMA (Moovit Urban Mobility Analytics). Já temos várias cidades entre nossos clientes, principalmente na Espanha, Itália e Estados Unidos.

Graças a todos os dados que coletamos sobre a movimentação de pessoas, temos uma visão clara da demanda de transporte na escala de uma cidade. Sabemos, por exemplo, quantas pessoas tomam um ônibus específico em um horário específico ou o tempo médio de espera em uma estação de trem. Esta informação é inestimável para planejadores urbanos e agências de transporte que desejam tornar seus sistemas mais eficientes. Fornecemos análises muito precisas e a um preço muito mais baixo que os estudos tradicionais, que podem custar vários milhões de dólares.

Fonte: Entrevista ao francês JDN em 12 de setembro de 2018


MORSE: Falam muito sobre o termo “Mobile as a Service”, o que ele significa, exatamente?

Nir Erez: O mundo da mobilidade urbana vai mudar nos próximos dez anos mais do que mudou nos últimos 100. Uma das maiores mudanças que vemos está relacionada ao Mobility as a Service (MaaS). As pessoas vão parar de comprar os seus modos de transporte, como um carro privado, e passarão a comprar a Mobilidade como um serviço. Comprando uma carona, um transporte, ou pagando por milha no meio de transporte que lhe for mais conveniente. Vejo as pessoas mais focadas na capacidade de se movimentar dentro da cidade do que na capacidade de ter um meio só de transporte. O que dá habilidade da pessoa de se movimentar com vários modais de transporte.   

A mobilidade vai ser um serviço que precisa ser baseado na demanda das pessoas. Com os dados e o uso de Big Data, é possível diminuir a fricção ao mudar de meios de transporte. E isso oferece o tipo um de modelo multimodal de viagem.

Fonte: Apresentação na NOAHConference em junho de 2019



MORSE: Agora, sobre a aquisição da Intel. Na verdade, por parte da Mobileye, divisão de carros autônomos da Intel. Como fizeram a operação? 

Nir Erez: Da minha perspectiva, esse acordo aconteceu muito rapidamente.

É importante falar que toda a transação foi feita virtualmente, todo o processo foi feito via videocalls no Zoom, incluindo a assinatura dos papéis e a assembleia com todos a empresa para anunciar. Foi diferente anunciar a operação por uma call com mais de 200 pessoas anteontem. Mas isso, de alguma forma, também fez com que as famílias - nossas e dos colaboradores - também participassem da operação. 

No momento, temos uma das maiores infraestruturas de dados do mundo quando se trata de produtos de transporte. Quando começamos, apenas 15% da informação era aberta. Agora, temos a capacidade de juntar a informação com a necessidade dos usuários. Esses dois dados são críticos para desenvolver o transporte de uma smart city. No final, quando a Mobileye transformar seus carros autônomos em serviço, ela precisa saber o que o usuário quer. 

Fonte: Entrevista ao Calcalist em 5 de maio de 2020

MORSE: Antes da aquisição, vocês já vinham firmando parcerias importantes. No ano passado, ajudaram a lançar o serviço de carpool com o Waze aqui no Brasil. Além de firmarem parcerias com a Microsoft, com a Uber e com a TomTom, essas duas últimas poderiam até ser vistas como suas concorrentes. Qual a importância das parcerias para o futuro da mobilidade?

Nir Erez: Eu acho que as parcerias representam uma nova visão sobre a mobilidade urbana, porque cria um conceito de ligar o carro a toda a malha de transporte da cidade. A próxima fase será habilitar que o usuário possa usar aplicativos como o Uber como parte da sua jornada no transporte público, o que pode eliminar a necessidade para estacionamentos públicos. 

E para ter isso, é preciso de informação em tempo real. Combinar a informação em tempo real e de tráfego, com a parte do transporte público e todos os horários de ônibus, metrôs e trens, cria uma visão mais única da viagem.

(...)

Nos levou seis anos para nos tornar o maior repositório de dados de transporte público e de trânsito em tempo real, mas, ao mesmo tempo, nós não somos uma empresa de mapas, ou uma provedora de tráfego, ou uma companhia de carros. Quando você pega o melhor de cada empresa no espaço da mobilidade urbana e as combina, então todo mundo pode ganhar com a expertise do outro em uma única solução.

(..)

Os cidadãos estão exigindo mais informação em tempo real do transporte público e de maneira geral também.  O padrão agora é a exigência que as cidades tenham essa informação para as pessoas.

O próximo nível é conseguir criar alertas de serviço enquanto você se movimenta. Então se você está num trem e quer saber se há atrasos numa linha de metrô, você precisa saber durante a sua rota. As expectativas estão aumentando - uma vez que as pessoas entendam que isso é tecnicamente possível de ser feito, eles esperam que seja implementado. 

Fonte: Entrevista ao site Intelligent Transport em 20 de fevereiro de 2019

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