A inovação segundo Mandic

Com o final do ano logo ali, resolvemos voltar com o Summer Ghost, só que dessa vez, um pouco diferente. No nosso primeiro “Ghost Interview” de férias, contamos histórias de artistas, músicos e esportistas que se aventuram no mundo do empreendedorismo de tecnologia, dessa vez, escolhemos falar sobre inspirações. No final de um ano tão complexo, que forçou a mudança do mercado como um todo, escolhemos falar da histórias daqueles que inovaram, transformaram suas carreiras e o mercado junto.


Na primeira edição do Summer Ghost de 2020, resolvemos olhar para terras nacionais, e trazer inspiração de quem fez a diferença de verde e amarelo. Para começar, vamos falar dele, que é um pioneiro da web, e pavimentou as primeiras avenidas para diversos produtos e serviços, e do empreendedorismo digital no Brasil: Aleksandar Mandic.



Mandic, você foi o criador da Mandic BBS (bulletin board system), a precursora da internet no Brasil lá nos anos 90, conta um pouco dessa história para a gente!

Eu trabalhava na Siemens, no final dos anos 80 estava numa planta da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, mexendo no computador de processos, ali, eu presenciei a intervenção e o envio de mensagens de alguém na Alemanha para aquele computador em São Bernardo. Tudo isso a 300 bps. Quando vi aquilo, fiquei muito entusiasmado! Cheguei para meu chefe [da Siemens], e falei que poderíamos montar esse sistema no Brasil. Ele curtiu a ideia, a diretoria aprovou, me deram um prêmio pela iniciativa, mas me falaram que tinham um problema de infraestrutura, e que talvez não desse para executar a ideia.

Percebi que tinha em casa quase tudo para fazer o projeto funcionar, o que me faltava era uma linha telefônica, que na época custava quase 4 mil dólares. Mas, quando casei, minha esposa tinha uma, que ganhamos ao casar. E aí, com a linha telefônica da minha esposa, surgiu o BBS. Comecei o BBS com um HD de 60 MB. Os HDs na época eram de 2 MB e 5MB. Eu consegui ter no meu apartamento 90 linhas telefônicas. Cheguei ao pico de ter 1400 linhas telefônicas, mas aí já era escritório.

Era o maior usuário noturno de linhas telefônicas no Brasil. Vira e mexe, a central telefônica de Pinheiros caía. Vieram me procurar da antiga Telesp, para saber o que acontecia naquela região, que todo mundo estava ligando para o mesmo número ao mesmo tempo. Acabou que eles me deram de presente algumas linhas para poder resolver o problema de congestionamento dessa central.

Esse foi o sistema pré-internet: um sistema em que era possível usar alguns serviços usando a linha telefônica.

Em 95, tive sorte que surgiu a possibilidade do uso comercial da internet no Brasil. E eu tinha tudo: os usuários, os cadastros e então era só mudar a chave da linha telefônica para o link de internet. (Apresentação na TDWC 2020 em 19 de maio de 2020)

Mas você chegou a tentar montar o sistema para a Siemens usar?

Sim. Montei o BBS, e por meses eu a deixei disponível para o pessoal da Siemens, só que ninguém usou. Então eu decidi abri-la para os meus amigos. Nos organizamos, fizemos uma vaquinha e compramos mais três linhas telefônicas. Com quatro linhas, a coisa começou a andar. Por causa da vaquinha, decidi cobrar mensalidades pelo uso dessa estrutura.

Todo mundo começou a me perguntar como eu ia cobrar por algo que outras empresas davam de graça. Eu falei: vão pagar para ter qualidade, porque eu quero clientes, não usuários. Esse conceito vingou, todos começaram a pagar e, com o dinheiro em caixa, criamos a BBS Mandic. (Entrevista na revista .br, da CGI.BR, edição 16, de setembro de 2019)

Quando a internet comercial chegou por aqui, em 1995, qual foi a primeira coisa que fez?

Lembro-me do primeiro dia, aquele 28 de agosto de 1995. A gente tinha o acesso, mas não tinha o que acessar. Fomos para o site da Nasa. (Entrevista à Folha de S.Paulo em 29 de setembro de 2017)

Tinha essa visão quase mágica do que era a internet, mas na parte de negócios, a internet, por ser tão nova, era bem dura. Conta para gente um pouco….

A internet pegou todo mundo desprevenido. Pegou o Bill Gates desprevenido. Pegou a Embratel desprevenida. Todo mundo estava desprevenido! Lembro que quando chegou a internet comercial, eu, claro, tinha 10 mil usuários no BBS, quando abri o acesso a internet pelo BBS, eu tinha 40 mil usuários. Naquela época, eu pensei que, se eu crescer 10 vezes seria ótimo, e esse foi o meu erro, eu tinha que ter crescido mais, tinha ter crescido não por 10 vezes, mas por 400 mil.

Uma vez com a internet no ar, os desafios viraram ocupar os espaços, aí começou a guerra mesmo. Quando os grandes começaram a entrar, aí que foi a briga. O UOL, a Globo, o Bradesco, todo mundo querendo ocupar aquele espaço. E, naquele tempo, a briga que tinha era chamada de boxe, essa competição. Quem saía da briga, saía quebrado. Acho que hoje, esse mesmo jogo se chama Fórmula 1, que não pode tocar no adversário que está fora. (Entrevista com a Abranet feita em 25 de fevereiro de 2015)

Em 99, você vendeu a Mandic, e até chegou a dizer que nunca mais empreenderia na internet. Um ano depois, veio o iG, que ajudou a criar! O iG revolucionou o mercado ao trazer o conceito de internet grátis, como pensaram nisso, do ponto de vista do negócio?

A internet grátis só funcionaria se tivesse muitos usuários. Um provedor com 10 mil usuários, não funcionaria. Quando lançamos o iG, em 9 de janeiro de 2000, nós tivemos 30 mil cadastros em um só dia e chegamos ao fim do mês com 800 mil usuários. Com 800 mil usuários, você consegue ganhar dinheiro. Então, o iG foi pensado para ser grande, porque pequeno não funcionaria.

Ele, sem dúvida, foi um marco para o Brasil. Deu a possibilidade da população entrar na internet, a internet era muito cara e impedia parte da entrada dos usuários. (Entrevista com a Abranet feita em 25 de fevereiro de 2015)

Daí veio o Mandic Mail, um servidor de e-mail pago para empresas, logo quando o Google estava começando. Como encarou a competição?

Quando saí do IG para montar o Mandic Mail, o e-mail era algo de graça, o Google chegou para oferecer e-mail de graça. E eu fui cobrar pelo e-mail, comecei a tratar o usuário como cliente.

Me perguntaram: o Google vem aí, o que vai fazer para competir com o Google? Eu respondi: “vou piorar o meu serviço, assim eu fico mais parecido com o deles”. Eu tinha lançado o e-mail ilimitado, que “nunca lota”, o Google veio com um e-mail de 2 GB, e fiz um de 5 GB, mais que o dobro deles. (Apresentação na TDWC 2020 em 19 de maio de 2020)

Depois dessas empreitadas todas pela internet, você poderia ter já deixado tudo de lá, mas acabou criando um app, o Mandic WiFi Magic, não é?

O Mandic Magic surgiu de uma necessidade minha. Viajo muito e sempre busquei o acesso a um leque diversificado de serviços, endereços, dicas, etc. Como não falo inglês, tinha que ser algo fácil de entender. Então criei o aplicativo para acessar redes WI-FI com senhas disponibilizadas antes por algum usuário, em qualquer lugar do mundo. No primeiro dia, o aplicativo teve 10 downloads. Como estávamos em quatro pessoas, já fiquei animado em saber que seis outras pessoas já haviam baixado o aplicativo. No outro dia, mais 40 usuários, depois mais 100, 1.000 e 3.000. Aí o negócio explodiu em dias, chegando à média de 30 mil downloads diários. Sem impulsionar novos clientes, tudo orgânico, ou seja, sem fazer nada, nenhum tipo de ação de marketing ou mídia. (Entrevista à revista GoWhere entitulada “Download Mandic”)

Dos anos 90 para cá, bastante mudou em termos de tecnologia. Mas isso alterou alguma coisa na gestão de pessoas?

Para mim, não. Há lições de empreendedores mais antigos que sempre serão importantes para as empresas. O Rolim Amaro, fundador da TAM, fazia questão de cumprimentar e conversar com todos os funcionários da empresa. Todo mundo conhecia ele.

Todo ser humano gosta de elogios, por exemplo. É a mesma coisa há milhares de anos. Para a gestão de pessoas mudar, as pessoas têm que mudar. Isso não aconteceu. (Entrevista à revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios em 25 de abril de 2017)

No geral, é mais fácil empreender hoje ou quando você começou?

Empreender nunca é fácil e nunca será. O empreendedor tem que ter boas ideias, saber como executá-las e deve ter um pouco de sorte ainda por cima. A regra não mudou.

Eu tenho a opinião de que a necessidade é importante para o sucesso de um negócio. Quando a pessoa está com o filho doente, o aluguel atrasado e um monte de conta para pagar, a empresa tem que dar certo. Vai ser sempre assim. (Entrevista à revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios em 25 de abril de 2017)

O que você acha da situação econômica atual para novas empresas?

Olha, quanto pior, melhor. As boas ideias sempre surgiram em época de guerras. Porque no conforto o ser humano não pensa, ele faz isso no aperto. Quem sabe, se eu soubesse falar inglês, não teria feito o app. (Entrevista ao site inova.jor em 24 de março de 2016)

Você então está otimista com nosso mercado?

Temos de ver o mundo de modo otimista. Dizem que o otimista e o pessimista são iguais, só que o pessimista sofre o tempo todo e o otimista sofre no fim. Ver o mundo com otimismo é muito melhor. Como diz o Elon Musk, prefiro ser otimista e errar a ser pessimista e acertar. Mas nem tudo é perfeito. Há uma coisa no mundo on-line que eu achava melhor antigamente: falar. Ninguém mais liga para ninguém, todo mundo marca call. Eu prefiro ligar, é fundamental. (Entrevista na revista .br, da CGI.BR, edição 16, de setembro de 2019)

O que você diria para um empreendedor que está começando? A ideia é algo importante, o empreendedor tem de saber o que quer fazer, mas o mais importante é terminar a ideia. Porque qualquer ideia não terminada é como um número multiplicado por zero. Pode ser até um número grande, mas multiplicado por zero vira zero. Eu falo: ‘Pessoal, vai lá e faz. Faz até o final’. É a parte mais importante, e quase todo mundo desiste. (Entrevista ao site inova.jor em 24 de março de 2016)

O que você aprendeu com suas outras empresas que permite evitar erros agora? O mundo pertence a quem é paciente. Quem é impaciente acaba perdendo para si mesmo. Aprendi a esperar as coisas acontecerem, porque existe um tempo de maturação. Mas é importante não confundir: ser paciente é diferente de ser lerdo. (Entrevista ao site inova.jor em 24 de março de 2016)

E qual a sua dica de timing, de momento para empreender?

É melhor aproximadamente agora do que exatamente nunca. (Entrevista à revista GoWhere entitulada “Download Mandic”)


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* Esse Ghost também é a nossa forma de desejar forças e as melhores energias a você, Mandic, durante o seu tratamento. Saiba que estamos torcendo pela sua melhora aqui e que estamos desde já bem ansiosos para saber qual será o seu novo empreendimento inovador no mundo digital! Com muito carinho, de empreendedores e profissionais do mundo digital que você inspirou e incentivou.


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