Mobile Made in China


China é parada obrigatória para qualquer discussão sobre o futuro do Mobile. Por lá, o smartphone é o meio usado por 99,1% dos usuários de internet do país, o que dá um pouco mais de 840 milhões de pessoas! Esses números se desdobram em tendências, afinal, se a população está com os celulares nas mãos, as empresas, as marcas e os governos também lutam para estar nesse espaço. Neste ano, o gasto com Mobile Ads chinês deverá somar US$ 72,2 bilhões, 76,3% do total gasto com publicidade digital no país. Todos esses superlativos nos levaram a um outro: uma newsletter em duas partes, tudo isso para responder a duas questões essenciais para o nosso setor: o que está rolando no ecossistema Mobile chinês? Como podemos aprender com ele?


O mundo pós app-calíptico


Para o mercado chinês, falar só de apps quando fala de Mobile é algo muito da década passada. E até mesmo falar de Superapps já é meio ultrapassado. Isso porque em 2017, a Tencent - mais conhecida como “ a dona do WeChat” -  criou os “MiniPrograms”, um tipo de app-store-dentro-do-app (uma “appception”) que mudou o mercado. Diferente dos aplicativos comuns, os MiniPrograms do WeChat não são baixados no celular, rodam em HTML5 e tem 10 MB de tamanho, o que significa que são lidos rápido o bastante e não pesam em celulares mais antigos. O resultado? Só no ano passado, os “apps dentro do app” chegaram a 300 milhões de usuários mensais ativos (alta de 45% em comparação com 2018) e movimentaram US$ 115 bilhões.


Data First


A gente já comentou um pouco aqui sobre o WeChat - app que é usado por, olhem só, quase 74% dos usuários mobile na China (em 2018, o app foi responsável por 34% do uso de dados de internet mobile da China! ) e por uma média de 77 minutos por dia. No ano passado, eles chegaram a um total de 1,15 bilhão de usuários ativos mensais (contabilizando dentro e fora da China), muitos deles usando exclusivamente o aplicativo exatamente por causa dos MiniPrograms. E isso estava nos planos da Tencent: depois de já ter as transações financeiras com o WeChat Pay (lançado em 2014), eles precisavam de novas formas de manter o usuário dentro do app, afinal quanto mais funções as pessoas fizerem nesse espaço, tanto mais informações que poderiam reter delas. Eles precisavam encontrar formas das pessoas procurarem por ônibus, comprarem objetos, pedirem por bicicletas, e até, preverem o futuro dentro do WeChat, por isso abriram as suas APIs e dividiram alguns dados com o ecossistema Mobile (qualquer semelhança com o que a Amazon está fazendo com a Alexa não é mera coincidência). Eles jogaram para o “universo” e o universo trouxe de volta: em menos de um ano, eles já tinham perto de 1 milhão de “mini-apps”; em 2019, já eram mais de 2 milhões - número parecido com a quantidade de apps que existem em toda a App Store da Apple.


Wake up call!


Quando o WeChat deixou de ser app para se tornar plataforma, o mercado se transformou! Tanto Alibaba quanto Baidu correram para criar os seus sistemas próprios de apps internos. O da Alibaba, inclusive, tem um fator a mais que é o do offline, já que a empresa é dona do Alipay, maior plataforma de pagamentos mobile da China com 54,5% de share no mercado. Isso sem falar na quantidade de empresas menores e governos de cidades que entraram no mundo digital com o empurrão dos APIs. E tem mais gente olhando para o segmento, o que nos faz também prestar mais atenção no assunto: no ano passado, a Tencent fechou acordo com a Samsung, que passou a habilitar que usuários de fora do WeChat acessem os MiniPrograms. Já a ByteDance, criadora do TikTok, já está trabalhando no seu próprio ecossistema de “appzinhos” internos - isso sem contar que a empresa já está pensando em lançar seu próprio smartphone.


Mudança parte 2


Uma parada para falar das pequenas empresas chinesas que começaram a ter “appzinhos” no WeChat: elas começaram a entender os dados dos usuários. Para baixar um appzinho de uma loja pequena, como um restaurante, o usuário lê um QR Code, neste código, os espaços acrescentam dados enriquecidos sobre a ação do cliente, assim conseguem ter uma boa ideia de tráfego e de comportamento de quem usa as funções no MiniProgram. Quase como num app próprio, mas sem precisar desenvolver tudo do zero. O New York Times chegou a contar, no final do ano passado, a história da HeyTea, uma pequena loja de chás de Pequim, que passou a usar um app no miniprogram do WeChat para monitorar os sabores de bebida que mais fazem sucesso na loja - e mudaram o cardápio a partir disso. Sim, amigos, uma pequena loja de chás com o mesmo poder do McDonald’s e da Starbucks no quesito personalização.


Multiplica por 30


Nessa hora, é bom lembrar de uma das maiores particularidades do mercado chinês: eles têm dezenas de app stores. Como a Play Store não pode operar em terras chinesas, são as fabricantes as grandes responsáveis por distribuir aplicativos numa versão modificada do Android. São mais de 30 lojas - e a principal, a MyApp, da Tencent, tem um pouco mais de 25% do mercado. De acordo com estimativa da AppsFlyer, os apps chineses deverão gastar US$ 22 bilhões em ads para download em 2022. E foi exatamente esse sistema diverso que abriu espaço para que os BAT (apelido carinhoso dado ao grupo formado por Baidu, Alibaba e Tencent) tivessem desenvolvedores aptos para criar tantas funções.


OS do futuro?


Ao criar o sistema que não depende de download para ter as funções ativadas num ambiente mobile, exatamente como um sistema operacional, só que fracionado, os chineses podem ter pavimentado o caminho para o futuro do Mobile. Afinal, se a gente admitir que estaremos num mundo onde até mesmo os smartphones poderão ser apenas uma peça, pensar que um serviço fracionado em pequenas funções, feito imediatamente, em vários devices, faz todo sentido. E as possibilidades para marcas são enormes, mas disso, a gente fala semana que vem!

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