Moderna: a startup que venceu o Covid-19

Um ano depois do primeiro paciente ser diagnosticado com Covid-19, estamos cada vez mais próximos de uma vacina para combater o (temido e odiado) Coronavírus. Pfizer, AstraZeneca, Johnson & Johnson estão correndo atrás do medicamento. Outra que está na corrida é a startup de Biotech, Moderna. Nesta semana, eles apresentaram seus resultados da terceira (e última) fase de testes da vacina: 94,5% de eficácia. Sim, uma startup pode tirar a gente da pandemia. E, quem seria melhor para o Ghost Interview de hoje do que os atuais CEO e presidente da startup, Stephan Bancel e Stephen Hoge?


Ok, a gente sabe que está andando fora da nossa zona de conforto aqui, mas é por uma boa causa: inovação. A Moderna foi criada em 2010 com a proposta de usar a tecnologia do mRNA (ou RNA Mensageiro, quase um “SMS do DNA” para as células do corpo) para produzir medicamentos; em 2013, houve uma mudança de rumos, com a possibilidade de usar o mRNA para produzir vacinas. Só em 2018 a startup fez o IPO nos EUA, a maior abertura de capital para uma Biotech: foram levantados US$ 563 milhões, levando o seu valuation a US$ 7,5 bilhões. Nesse meio tempo, eles perceberam que o caminho para a eficiência neste mercado seria apostar no digital. E foi essa digitalização que permitiu que a equipe conseguisse mudar toda a sua pesquisa - até então focada para medicamentos contra o câncer - e seus laboratórios para se dedicar à vacina contra o Covid tão logo as primeiras notícias sobre o vírus chegaram, em janeiro. Vale a pena pegar uns minutinhos do seu dia para ler:



Poderiam nos explicar um pouco sobre o mRNA modificado, o caminho que vocês escolheram para criar medicamentos?

Stephan Bancel: O RNA Mensageiro transfere as instruções do DNA para que a célula crie proteínas, o que é necessário para a vida. Nossa abordagem é usar medicamentos de mRNA para instruir as células do próprio paciente a produzir proteínas que podem prevenir, tratar ou curar doenças. Acreditamos que a terapêutica e as vacinas de mRNA têm o potencial de funcionar além do que é possível com as pequenas moléculas (ou comprimidos), produtos biológicos e vacinas de hoje. (Entrevista ao site da Loncar Funds em 10 de maio de 2019)

Stephen Hoge: Usando uma outra linguagem: o mRNA é o software da vida. As possíveis aplicações do mRNA são muitas, é possível fazer com que o corpo crie qualquer proteína, e há chance de tratar quase qualquer doença. (Entrevista à revista Chemical & Engineering News em 3 de setembro de 2018)

De maneira prática, o que o mRNA modificado pode significar para a indústria farmacêutica?

Stephan Bancel: O maior desafio de produzir moléculas [de medicação] para as grandes farmacêuticas é que o processo é muito lento, caro. É basicamente um modelo de teste e erro. Porque nessas moléculas, se você muda um átomo, você precisa mudar tudo. Não tem como saber se ela é eficiente ou tóxica. O processo dos últimos 120 anos foi testar milhares de componentes para lançar apenas um produto. Apesar do impacto positivo nos pacientes ao redor do mundo, ainda é um processo muito lento.

Acreditamos na Moderna que há uma nova era para a medicina, que é a “medicina digital”. O dogma da biologia é que dentro das suas células tem o DNA, que manda produzir proteínas a partir do mRNA, que entra no citoplasma das células e faz a proteína. Esse processo acontece mais de um trilhão de vezes ao dia dentro do seu corpo. Você é basicamente uma fábrica de proteína. A indústria faz proteína de uma maneira muito lenta: eles usam uma bactéria para decodificar o gene humano de alguma proteína, por exemplo, a insulina. A bactéria cria a insulina e depois ela precisa ser filtrada e readequada para o corpo humano. Isso tem um impacto sem tamanho para os pacientes diabéticos, o problema é que é muito difícil. Existem 22 mil proteínas, e existem apenas 80 produtos que foram aprovados para serem usados como proteína.

Vírus são feitos de mRNA, se você injeta algo sintético em mRNA, você tem resposta imune forte, pois o sistema imune pensa que é um vírus, por isso, por alguns anos, esse tipo de abordagem foi deixado de lado pela comunidade científica. Mas foi descoberto que se você modifica o mRNA e consegue enganar o sistema imune, e ele não pensa que é um vírus, ele consegue entrar nas células e fazer qualquer proteína on demand. O mRNA é como um software para uma fábrica de proteínas.

Conseguimos criar anticorpos em uma única dose. E a segunda coisa é velocidade, da ideia de um componente de remédio à fase de testes dura entre 24 e 60 meses, o nosso processo é bem mais rápido, é como software. Porque só se muda a sequência das mensagens. Conseguimos ir da ideia até o teste em seis meses. Isso impacta fortemente o custo, reduzindo o preço final do remédio para as pessoas.

Não pensamos em termos de ciclos de meses, mas de 20 anos. Se a gente reduz em alguns dias os processos, em 20 anos, seremos capazes de aprender muito mais sobre a produção de medicamentos e proteínas. (Apresentação no Exponential Medicine 2015)

Nos primeiros anos, a Moderna conseguiu levantar alguns milhões em capital privado, antes de fazer o IPO em 2018 - o maior do setor de BioTech! Um dos pontos que mais comentam é como vocês se posicionam como uma empresa de tecnologia. O digital é importante para a Moderna?

Stephan Bancel: O digital é crucial para nós por muitos motivos. Se você pensar no estado da tecnologia hoje e na integração que você pode fazer em torno dos sistemas, ainda usar papel é um absurdo. Dissemos à equipe que tentaríamos ser digitais desde o design de um produto até sua remessa. Os humanos cometem erros quando realizam tarefas repetitivas. Então, primeiro, pensamos que o digital apoia nossos objetivos de qualidade, já que ajuda a automação.

Ao incorporar tecnologia digital em nossos sistemas desde o início, tudo é automatizado. Podemos gerar rapidamente um relatório de um computador agora para o status do registro de treinamento nesta instalação para cada operador.

(...)

O digital também ajuda a melhorar a velocidade. Acredito piamente que, se você permitir que os funcionários utilizem a tecnologia para automatizar tarefas repetitivas, seus empregos serão muito mais estimulantes, porque eles poderão gastar seu tempo inventando coisas e resolvendo problemas.

Outro grande motivo pelo qual o digital é uma parte crítica de nossa abordagem é que o mRNA é uma molécula de informação. Se você pensar sobre isso, o mRNA começa como um conceito de droga no cérebro de um cientista. Isso é muito diferente de uma pequena molécula em que você deve observar a estrutura química. No nosso caso, começa pensando em uma proteína. O cientista vai pensar em muitos detalhes, incluindo a química necessária para construir o mRNA e qual nanopartícula de lipídio usar. Queríamos tornar esse processo o mais eficiente e preciso possível para nossa equipe.

Projetamos um programa de software, que chamamos de Drug Design Studio, onde um cientista pode inserir “um pedido” para qualquer proteína humana (porque o genoma humano foi sequenciado). Um menu suspenso permite que eles escolham todas as características da molécula - a química, o processo de fabricação, a formulação e assim por diante - e então eles podem projetar outra, se quiserem. Quando terminam com 10 ou 15 moléculas para aquela doença e gene, eles podem clicar na ordem (na maioria das vezes eles estão em Cambridge ou em casa) e isso vai automaticamente para os robôs no andar de cima em Norwood. A equipe fará isso em algumas semanas e, em seguida, será enviado de volta para Cambridge ou para colaboradores estratégicos como AstraZeneca ou Merck. (Entrevista ao site da Loncar Funds em 10 de maio de 2019)

Ou seja, vocês criaram um “marketplace de proteínas”! A capacidade para usar a tecnologia de vocês para criar vacinas veio em 2013, com a parceria com a AstraZeneca (num investimento de US$ 140 milhões na época). Como estavam antes do Covid chegar?

Stephan Bancel: Acredito que as vacinas contra doenças infecciosas serão a espinha dorsal de crescimento e estabilidade para a Moderna e fornecerão grandes fluxos de caixa nos próximos anos. Temos a oportunidade de reinventar o negócio de vacinas - com nossas vacinas projetadas para fazer com que as células produzam antígenos que imitam aqueles apresentados ao sistema imunológico durante a infecção natural.

Além disso, todas as nossas vacinas podem ser feitas na mesma instalação, gerando tempos de ciclo de fabricação mais rápidos e uma redução significativa do risco de investimentos de capital de fabricação. Essa abordagem pode nos ajudar a evitar uma situação frequentemente vista por empresas biofarmacêuticas tradicionais com fábricas dedicadas, em que a demanda supera a oferta devido à falta de capacidade.

As vacinas continuam a ser a melhor esperança para controlar as doenças infecciosas. É por isso que estamos redobrando nossos esforços para fazer vacinas comerciais mais inovadoras, bem como vacinas de saúde pública, colaborando com fundações e agências governamentais, conforme delineamos anteriormente em nossa estratégia de responsabilidade social corporativa. Acreditamos ser extremamente importante que todo o campo avance com pesquisa e inovação para tornar realidade as vacinas novas, seguras e eficazes.

(Carta aos investidores de 2019 - publicada antes das notícias dos primeiros casos de Covid)

A Moderna foi uma das primeiras a ter, em fevereiro, um protótipo da vacina que seria testada. Como fizeram isso?

Stephan Bancel: Em parte, foi por causa de relacionamentos que já tínhamos com os pesquisadores. Estávamos trabalhando com o NIH [National Institute of Health dos Estados Unidos] por alguns anos em dois RNAs de coronavírus de doenças infecciosas respiratórias - como a MERS. A colaboração nos ajudou muito. Afinal, batalhar contra uma pandemia é muito difícil se você não tem nenhuma pesquisa e dados biológicos, nós começamos trabalhar com as cepas que já tínhamos para colocar o projeto para acontecer.

Em 10 de janeiro, cientistas da Universidade de Fudan, em Xangai, postaram a sequência de genomas do coronavírus. Nós nos juntamos com a NIH e nos debruçamos sobre os dados que tínhamos, procurando por alvos. Apenas três dias depois, descobrimos a forma que iríamos atacar o vírus na vacina.

Um grupo de engenheiros desenhou a candidata à vacina de mRNA, enquanto outro grupo convertia a área usada para a pesquisa em vacinas personalizadas contra o câncer em um espaço que poderíamos usar para testar as primeiras doses da vacina contra o covid.

Tivemos que mudar processos nos times, e o time teve que testar muitas dessas mudanças na hora. Foi a primeira vez que usamos o espaço voltado para o câncer assim.

Tiveram muitas noites sem dormir e pessoal trabalhando todos os sete dias da semana.

Já em 7 de fevereiro, conseguimos completar nosso primeiro lote da vacina. Mandamos as primeiras doses para o NIH em 24 de fevereiro, 42 dias depois do vírus ter sido sequenciado. (Adaptado da reportagem da Business Insider em 6 de março de 2020)

Tanto a vacina de vocês quanto a da Pfizer utilizam o mRNA, mas de formas diferentes. Anteontem, vocês indicaram que houve eficiência de 94.5% nos testes da fase 3 - a final antes da aprovação. Como esses números são boas notícias?

Stephan Bancel: Na fase 3, no último estudo clínico, 30 mil pessoas eram testadas. Nós mostramos que a eficiência de quase 95% da vacina, e foi uma performance muito boa [a OMS recomenda eficiência entre 60% e 70% para vacinas contra vírus]. E o mais importante é que, dos casos estudados por um comitê científico independente, 11 pessoas desenvolveram casos severos de Covid. No entanto, todas essas 11 pessoas tinham recebido o placebo e não a vacina. Então, nenhum dos candidatos que foram vacinados desenvolveu a doença mais severa, e essa é a real boa notícia aqui. (Entrevista ao site suíço de notícias RTS em 16 de novembro de 2020)

Como a vacina da Moderna se diferencia da vacina da Pfizer?

Stephan Bancel: Em grandes depósitos, as vacinas de mRNA precisam ser mantidas a -20 graus Celsius. Conseguimos dados de estabilidade que mostram que a nossa vacina pode ser mantida por 30 dias em um refrigerador normal, entre 2 e 8 graus Celsius de temperatura, como é guardada a insulina ou produtos médicos em farmácias locais. Nossa vacina também pode ficar em temperatura ambiente por um dia todo. (Entrevista ao site suíço de notícias RTS em 16 de novembro de 2020)

E a pergunta que não quer calar: quando teremos a vacina?

Stephan Bancel: Essa é a agenda que temos diante de nós: o estudo será concluído em 7 a 15 dias, precisaremos de alguns dias para verificar a qualidade dos dados e encaminhá-los aos órgãos reguladores. Portanto, no final de novembro ou início de dezembro apresentaremos os arquivos (para o pedido de autorização de comercialização) nos Estados Unidos e na Europa. As agências poderão revisar os dados clínicos em algumas semanas, e esperamos obter autorizações em meados de dezembro para começar a enviar os frascos.

Para os países desenvolvidos onde há muitos idosos, que estão em maior risco, acho que até o verão as pessoas que querem uma vacina terão acesso. Também vamos começar um estudo em breve em adolescentes, um estudo separado para o qual primeiro precisamos dos resultados completos dos estudos em adultos. O objetivo é ter esses dados para crianças de 12 a 17 anos, para que possam ser vacinadas ao mesmo tempo, no próximo verão, e ter um resultado normal de 2021 no calendário escolar. (Entrevista ao site francês LCI em 17 de novembro de 2020)

O Stephan falou que a Moderna é um “trabalho de 20 anos”. Qual o objetivo da empresa no longo prazo?

Stephan Bancel: Nosso objetivo é tratar as doenças raras com necessidades médicas não atendidas e, é claro, a cura do câncer. (Reportagem publicada pela Forbes Brasil em 2 de março de 2020)



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