NFT e a Token Economy

A notícia de que o gif do Nyan Cat e que o primeiro tweet de Jack Dorsey foram vendidos por alguns milhões de dólares como Non-Fungible Tokens (ou NFT) fez com que as explicações sobre o assunto chegassem a todos os sites, newsletters e podcasts que cobrem inovação. Mas, se num primeiro momento muitos (e a gente se inclui nessas pessoas) estavam quebrando a cabeça para entender o que era o NFT, agora a procura é outra: como ele pode abrir o espectro dos negócios? E, bem, challenge accepted:

Um pequeno glossário

Quando falamos em NFT, estamos falando de tokens digitais “não-fungíveis” (tradução terrível para Non Fungible) cujas informações são registradas na blockchain. Alguns têm comparado os NFTs a um cartão de Baseball, mas, como a gente é brasileiro, podemos falar aqui que o NFT é um papel de carta raro ou uma figurinha do Pelé (#denunciandoaidade). Se você entende algo de bitcoin, primeiro, parabéns, segundo, você entende que existe transação entre elas. Ou seja, eu posso trocar as minhas bitcoins por outras, porque, apesar de cada uma ter um registro diferente no blockchain, elas têm o mesmo valor pelo mundo. Isso não acontece com os NFTs! Cada NFT é um token completamente exclusivo, portanto, “não-fungível” (ou seja, não trocado entre si). Quase como a assinatura de um artista numa obra, o que explica porque artistas e músicos estão indo atrás de criar seus NFTs, inclusive. Mas, se elas são não-trocáveis, como faz para comprar? O NFT é criado e integrado à plataforma Ethereum que tem uma criptomoeda, a Ether. Novamente, cabe uma diferenciação com a bitcoin aqui, porque às vezes dá uma confusão gigantesca (isso porque as duas usam blockchain). A Bitcoin é uma moeda digital baseada em blockchain, ou seja, ela foi criada para funcionar exatamente como dinheiro - você pode comprar algo usando bitcoin, pode pagar alguém usando bitcoin. A Bitcoin é então uma "concorrente" da Ether, criptomoeda baseada na plataforma Ethereum que permite criar diversos tipos de contratos digitais que usam o registro em blockchain - ou seja, você pode executar transações, assinar contratos digitalmente, criar contratos… E, melhor do que tudo, você pode criar tokens ligados a esses contratos inteligentes, daí que veio o NFT. Quem vende um NFT cria um contrato (e os termos todos do contrato, que fique claro) e vincula a execução do contrato a um pagamento usando criptomoeda - a Ether. Para os entendidos em cripto, a Ethereum é um supercomputador. Para nós, pobres mortais, a plataforma é parecida com um sistema operacional, que permite uma série de funcionalidades para desenvolvedores e usuários.

Open Sea and Blue Ocean

Entrando nos NFTs especificamente, o que vimos acontecer no mercado foram dois tipos de transação diferentes. A primeira é o NFT usado como contrato de um objeto que existe no mundo físico, mesmo que exista também, de alguma forma, no digital. Esse foi o caso dos leilões de arte do Bepple por US$ 69 milhões, ou até o vídeo da Grimes. O outro uso do NFT é a venda de um token sozinho, em outras palavras: um “objeto” que é puramente digital. Isso aconteceu com o tuíte do Jack Dorsey, que mencionamos ali no começo. O que foi vendido foi o registro em si, não exatamente o objeto; em alguns casos, nem mesmo a propriedade intelectual do objeto é vendida, apenas aquele registro único do NFT. E, não, não vamos entrar na discussão se um registro vale pela obra porque, bem, não temos espaço para tanta argumentação. O que vale a pena falar aqui é: se tem dinheiro, já tem players neste mercado. E alguns players: um deles já comentamos aqui, a Ethereum, plataforma por onde os NFTs passam, e pela qual os desenvolvedores dos contratos digitais precisam passar. O outro player é a OpenSea, um marketplace de NFTs que, na semana passada, recebeu US$ 23 milhões em investimento da Andreessen Horowitz; a startup informa que viu o volume de transações aumentar 100 vezes nos últimos seis meses…

Token me, e o AirBNB do Digital

Abrir espaço para a venda de produtos completamente digitais pode quebrar a cadeia que conhecemos de vendas, antes baseada no espaço físico. Um quadro mesmo, precisa de um espaço, um estoque, um revendedor e um distribuidor. Num sistema de contratos inteligentes, essa cadeia diminui para o mundo físico. E aumenta para o mundo digital. Lembra que falamos que o NFT é ligado a um contrato e a uma execução? Pois então, tal contrato pode ter indicado que a pessoa que compra tal token só pode revender o produto digital adquirido se compartilhar uma parte do share com o criador; o contrato também pode proibir o compartilhamento dos metadados comprados. O que isso pode significar para um software, por exemplo? Basicamente, que podem existir espaços para revender licenças e assinaturas de software. Além disso, os smart contracts usando blockchain ainda permitem que a licença do software, que normalmente é uma assinatura ou uma mensalidade, possa ser quebrada em dias! Sim, pode existir alguém revendendo dois dias de licença do uso do Photoshop ou do Office. Sim, do mesmo jeito que você pode comprar uma casa na praia e colocar para alugar alguns finais de semana num AirBNB, ou equivalente, para ajudar a cobrir os custos, você poderia fazer isso com bens virtuais. Existe já uma empresa, a Unlock, que está oferecendo para os usuários a oportunidade de comprar um NFT que serve como uma assinatura do site da Forbes. E, aqui a gente vai além, por que não uma diária de Netflix? Ou do Spotify?

O que é a vida real?

Os tokens ainda podem se expandir para o mundo físico. Algumas marcas, como a Nike, estão usando os registros em blockchain para criar uma autenticação digital para seus produtos, uma forma de lutar contra a pirataria. Se você entende algo de sneakers, primeiro, parabéns, segundo, você sabe que tem alguns tênis completamente exclusivos, lançados em pequenos lotes, o que torna o objeto não só caro, como também completamente difícil de se conseguir via revendedoras. Para alguns, os tokens dos próprios tênis podem virar um mercado em si, uma forma de venda direta dos sneakers únicos, mas também uma forma de se “ter” uma parte de um objeto único! Porque o NFT trouxe de volta algo que achávamos que tínhamos perdido quando a internet começou: o conceito de algo único e não compartilhável. Nesse sentido, é até irônico que um gif de meme tenha sido vendido via NFT, porque o token é o anti-meme.

A gente apoia a AE4

Anteontem, o NYT pôs uma de suas colunas para ser vendida via NFT. Alguns influenciadores também lançaram as suas versões. Enquanto a gente estava pesquisando para esse Morse, o nosso colega (e Ghost Interview já) Scott Galloway publicou um podcast sobre o assunto. Nesse cast, ele entrevistou Raoul Paul, co-fundador e CEO da Real Vision. Segundo Paul, os tokens são uma forma de se criar tokens “por comportamento”, e para as marcas, criadores de conteúdo e influenciadores conseguirem monetizar a sua audiência. “Você tira o poder dos terceiros, tira o poder do Google e do Facebook, e você dá o poder para a comunidade, é uma forma de redistribuir para a rede”, comentou Paul. A possibilidade é de criar sistemas de reward usando os smart contracts, que liberam ainda mais tokens exclusivos (assim como nos games), fechando o ciclo virtuoso a partir de tokens que são verificados e vendidos via blockchain. No mundo dos músicos, o NFT significa também uma desintermediação. Nessa semana mesmo, alguns artistas criaram o Phonogram.me, uma plataforma para transação digital de música direta via NFT. Voltando aos influencers, e aos memes, você imagina se todas as celebridades que a galera da FGV conseguiu juntar para o vídeo dos calouros usassem NFT para registrar os vídeos como algo único e para eternidade?! Um meet and greet intermediado pelo blockchain? Alô, Gabi, da AE4, você pode criar um marketplace de influencers - fala com a gente!

Uma casa em marte

As experiências físicas também podem ser tokenizadas! A NBA, por exemplo, criou a NBA Top Shot, uma série de NFTs de vídeos de jogadas famosas, como se fossem cartões colecionáveis de jogadores e times. Times esportivos podem se aproveitar dos tokens para criar também um sistema de incentivos, incluindo aí os estádios! Aconteceu no final do ano passado, em um game, mas é um exemplo que pode ser usado ao vivo: o jogo oficial da FIA, F1 DeltaTime, vendeu 5% do circuito de Mônaco em forma de NFT, por US$ 223 mil, assim, tudo que passar por aquele 5%, será da pessoa que comprou. Imagina fazer isso com estádios?!

Da Lei Pelé ao fomento do Empreendedorismo

Lá no começo falamos sobre como o NFT poderia ser comparado à uma figurinha do rei do futebol. Bom, depois de você entender aqui no texto todas as demais possibilidades, não fica difícil dizer que também seria possível você comprar, por exemplo, o milésimo, ou o mais bonito, gol do Pelé. E, poderíamos ir além, da mesma forma que a F1 vendeu 5% do circuito de Mônaco, porque não comprar 10% do passe de um jogador? Simples assim, investir na carreira de jogadores como se fossem "ativos em blockchain". Nesse caso, poderíamos até dizer que uma partida de futebol seria um live commerce de NFT's de Jogadores :)

Agora, voltemos ao nosso mundo de tecnologia e empreendedorismo. Assim como no futebol, por que no mundo dos negócios empresas e empresários não poderiam investir em profissionais e empreendedores com futuro potencial? Sabemos, e já falamos em vários Ghost Interviews por aqui, que muitos profissionais de sucesso passaram por desafios e fracassos até chegar ao sucesso. Qual o ponto aqui? Até hoje os investimentos de Angels, Fundos e afins, é sempre feito no CNPJ, ou seja, naquela empresa e tese específica, que se não funcionar compromete a totalidade do ganho futuro de quem investiu, mesmo que o empreendedor tenha um enorme sucesso depois, com outras teses e outras empresas. Porém, se todos dizem que os fracassos e os erros são na verdade uma escola para o sucesso, quem investiu nesse aprendizado acabou ficando sem o benefício futuro. Essa é a base da Lei Pelé, que permite que o investimento na formação de jogadores possa ser rentabilizado na linha do tempo. Então, por que não permitir o investimento na formação de futuros profissionais e empreendedores via NFT?



MATERIAIS GRATUITOS

MORSE YEARBOOK

Veja o que o futuro da tecnologia mobile reserva para os próximos anos.

RECEBA NOSSO CONTEÚDO