O dono do novo Google Glass!

As ondas do mundo tech às vezes nos deixam um pouco tontos: uma hora é tendência, na outra é hype, depois vira decepção, até que volta à voga. Os smart-glasses são exatamente esse caso: os Google Glasses lançados em 2013 passaram de sensação a “bomba” para a Big Tech em dois anos, quando eles anunciaram o fim da produção. Em 2020, no entanto, o Google parece ter reaberto as portas para os óculos ao comprar a North, startup que lançou o smart-óculos Focals no ano passado. 


O Ghost Interview foi atrás de um dos fundadores e (agora ex) CEO da North, Stephen Lake. A empresa começou sendo Thalmic Labs lá em 2012, com o objetivo de criar um produto: o Myo, uma pulseira capaz de ler movimentos do braço e traduzi-los para a linguagem computacional (ou seja, transformá-la em um gadget interativo). Só que para o Myo funcionar, ele precisava conversar com outro device, um vestível, assim começou a busca pelo smart-glass. A empresa chegou a trabalhar com o Google Glass (ah, a ironia), e depois focou (*piada necessária*) em criar o seu próprio, o Focals - na época, a companhia teve investimento de grandes nomes como Amazon e Intel. Mas, como pivot já é algo comum nas startups, a história extraordinária vem a partir daí, afinal, o que é necessário para o “smart-glass” ser vencedor na disputa pela interface do futuro.



MORSE: Lá em 2012, vocês criaram o Myo, um bracelete que lia sinais de movimento do braço, o que os fez migrar para os smart-glasses? Stephen Lake: Na verdade, é um conceito que já vem com a gente desde o início. Estávamos trabalhando no Myo, que era uma pulseira que entendia os movimentos mas precisava de um display para conversar, como o headset de realidade virtual. Percebemos já ali, em 2012, que precisaríamos de um tipo de headset, a gente até testou com o Google Glass e uma outra série de displays até entender o produto que seria o melhor para “conversar” com o Myo. A gente percebeu que para ele existir, precisaríamos criá-lo. (Entrevista ao TechCrunch em 6 de agosto de 2019)


MORSE: Então não é errado dizer que o Focals começou por causa do Google Glass, O que fez vocês criarem o de vocês de vez? Stephen Lake: O problema que encontramos foi muito menos entre a comunicação entre as lentes e a gente, quando testamos. O problema era as pessoas! Os smart glasses assustavam os outros, com aquele design meio quadrado e com câmeras.

Nós tentamos usá-lo em público. Até tentei usar por um dia inteiro, as pessoas ficavam me encarando. Isso me desencorajou a usá-lo. Então eu [e os outros cofundadores da North] nos perguntamos: se a gente que é early adopter se sentiu assim, o que isso significa para o consumidor-médio? (Entrevista à Wired em 23 de outubro de 2018)


Stephen Lake: O erro foi que eles criaram um computador para as pessoas vestirem no rosto, o fato de eles terem formato de óculos foi um passo seguinte nesse design. Quando projetamos o Focals, nosso primeiro pensamento é que ele precisaria ser um óculos, então ele foi desenhado como óculos, e depois desenhamos a tecnologia que estaria dentro do seu design. (Entrevista ao site Research Money em 9 de janeiro de 2019)


MORSE: De maneira prática, o que significou criar o design para o óculos e não o óculos para a tecnologia? Stephen Lake: Nós tivemos que criar todo um processo de moldar as lentes em volta dos materiais holográficos. Nós curvamos o holograma primeiro e, então, corrigimos a distorção, para depois colocar a lente em volta disso. Outra consideração é a bateria, que é boa parte do peso dos óculos, ela tem autonomia de 18 horas.

O óculos vem com um anel em conjunto, que funciona como o swipe nos óculos. Já que fazer o swipe com o rosto é estranho. Você quer ser discreto e não ir contra as normas sociais [enquanto usa o smart-glass], e um touchpad na lateral do rosto é completamente contra esse pensamento. (Entrevista à Wired em 23 de outubro de 2018)


MORSE: Um dos pontos que mais elogiam do Focals é exatamente que ele é parecido com um “óculos normal”, mas e na parte de “dentro”, como é a interface?  Stephen Lake: É bastante minimalista. Ela não fecha toda a sua visão ou te previne de ver o que está à sua volta. No lugar, ele mostra apenas pequenos pedaços de informação que, para quem vê, flutuam a um braço de distância na sua frente, que você pode olhar ou apenas deixar de lado. Começamos a oferecer mensagens de texto, calendar e algumas direções de caminho. Depois colocamos previsão do tempo, uma conexão com a Alexa e com o Uber, mas há espaço para expandir. Nós estamos optando por construir experiências que acrescentam algo para o “mundo real”.

Com o Focals, a ideia é passar a sensação de que você está estendendo as suas habilidades e não que está se amparando numa ‘caixa’ para fazer as coisas no seu lugar. (Texto publicado em seu Medium em 23 de outubro de 2018)


MORSE: Então é tipo um dispositivo de Realidade Aumentada, tipo o Spectacles, da Snapchat? Stephen Lake: Nós não estamos focados em unicórnios pulando em arco-íris ou monstros saindo das paredes. O nosso foco é ter um produto que será mais útil. Durante o dia, ele é usável, é confortável e dá informações valiosas e que fazem sentido na hora.  (Entrevista publicada pela StartSe em 23 de outubro de 2018)


MORSE: Você comentou em algumas entrevistas sobre a capacidade do software do óculos entender que as pessoas estão conversando para não mostrar notificações neste momento. A gente que está acostumado com os smartphones até pode achar isso estranho, mas o que pensaram quando especificaram essas partes do design do óculos? Stephen Lake: Um aspecto único do processo de design do Focals foi que ele foi feito para estar desligado [“designed to be off”], e isso está por detrás de tudo que pensamos no produto. É um ponto de vista que optamos para as experiências que escolhemos para colocar no Focals. (Texto publicado em seu Medium em 23 de outubro de 2018)


MORSE: É quase como um futuro do push notification... Stephen Lake: As interações são desenhadas para apenas mostrar para o usuário o que é importante e o mais rápido possível. As interações têm, no máximo, 15 segundos, e são criadas para estar em micro-momentos que temos como, por exemplo, quando entramos num elevador, esperamos numa fila… É o oposto da maioria do design de tecnologia e produtos que são feitos hoje em dia, já que eles são feitos para nos prender, para que a gente maximize o tempo gasto no aplicativo ou no device. (Texto publicado em seu Medium em 23 de outubro de 2018)


MORSE: A Amazon investiu em vocês em 2018, numa rodada que somou US$ 120 milhões (que contou com a Intel também), e é interessante que vocês falam do óculos como o pessoal do Mirror e que cria assistente de voz fala da interface, como a Alexa influenciou o produto de vocês? Stephen Lake: O que acho que os devices como a Alexa ajudaram foi mais no sentido de que as pessoas podem substituir o telefone como o device para interagir em alguns momentos e em alguns casos. Se você tem a Alexa, por exemplo, você não precisa parar de cozinhar para colocar um timer no telefone, por exemplo, é só dar um comando de voz. (Entrevista à CNBC em 27 de julho de 2017)


MORSE: Essa é uma discussão presente aqui no Morse e no MorseCast, mas qual será a interface do futuro, na sua opinião? Stephen Lake: Quando pensamos na interface do futuro, é quase uma interface invisível. O que a gente queria é pegar a tecnologia e tirá-la das telas ou de objetos para torná-la parte do nosso mundo, do nosso dia a dia. O primeiro passo dessa jornada foi pensar na tecnologia com essa interface, e não em devices específicos.

Há ideia de intenção e ação: eu quero ver se um café aqui perto é bom, então eu procuro no celular sobre o lugar e depois vou até lá. Na nossa visão, no futuro, com os computadores entendendo cada vez mais sobre o nosso comportamento, ganha mais o contexto - imagine um computador que consegue ver o que a gente vê, compreender o que a gente faz - haverá uma redução do tempo entre a intenção de fazer algo e a ação em si. Então a interface será mais ativa.

Com mais contexto e personalização, a tendência é que o computador vai te dar as informações perfeitamente no momento em que você precisar. A interface [computacional] será uma parte implícita do nosso mundo.  (Apresentação no Fireside Chat na CDL Super Session 2019, em 24 de junho de 2019)


MORSE: Ou seja, a interface do futuro depende de dados… Stephen Lake: A ideia dos smart glasses,  no longo prazo, é entender o que as pessoas estão fazendo no mundo. Tanto "para o lado de fora" - com a melhora da visão computacional, da detecção de imagens - quanto para o "lado de dentro", ou seja, entender o estado interno da pessoa, com sensores ligados à pessoa, que conseguem entender se a pessoa está cansada, o que ela está olhando, o que é interessante para ela.

A quantidade de contexto que podemos ter é incrível. Pense no que já foi possível por causa de celulares hoje em dia, mas um celular é basicamente um GPS que diz ao computador onde você está, e tem informações de contato, esses são os dados que o celular dá, e veja a quantidade de aplicativos que foram criados a partir disso. Pense num computador tendo 100 mil mais. Entendendo quem são essas pessoas, para onde elas estão olhando, o que as interessa. Como o computador pode usar essa informação toda é esse o poder que criamos. (Apresentação no Fireside Chat na CDL Super Session 2019, em 24 de junho de 2019)


MORSE: Isso que você falou sobre captar vários sensores, bem, é o que todo mundo do setor de IoT fala, mas e aí, a gente terá tudo conectado, sem ter uma inteligência que une todas as experiências? Stephen Lake: Acho que estamos perto de chegar ao ponto da, tecnologia pela tecnologia. Colocamos um computador no pulso e agora o colocamos no ouvido. Suas meias podem lhe dizer quanta força você está exercendo no chão. E o sucesso da CES de 2017 foi uma escova de cabelo inteligente que fornece aos usuários um relatório completo de saúde capilar com alguns movimentos. Sozinhas, essas são inovações revolucionárias, mas lado a lado essas inovações na tecnologia vestível têm um foco no fornecimento de dados sobre os usuários, em vez de agregar valor aos usuários. E no mundo saturado de dados de hoje, os dados que os dispositivos sozinhos fornecem não são suficientes, especialmente quando os respectivos casos de uso são tão específicos. Portanto, o que vem a seguir para os wearables depende se eles evoluirão do simples fato de serem computadores vestíveis.

Passamos décadas vivendo com computadores, revolucionamos a produção de hardware e a composição de software e ainda precisamos começar a construir computadores para humanos. Os dispositivos vestíveis fornecem a mesma funcionalidade independentemente de quem os usa; meu smartwatch faria a mesma coisa por você e por mim. A variabilidade humana é tratada como um obstáculo, algo que deve ser superado ao inovar. Se cada consumidor é único, a verdade é que cada wearable deve ser único.

Para inovar significativamente no mundo dos wearables, o foco deve estar em como os seres humanos se comportam e por que isso é importante no contexto dos dispositivos vestíveis. Fazer isso levará a produtos que refletem quem somos e nos ajudam a ser quem queremos ser. Dito de outra maneira: descobrimos a parte "wear", agora precisamos resolver a parte "able". O que podemos fazer com essa tecnologia e como podemos torná-la significativa para as pessoas? (Texto publicado em seu Medium pessoal em 18 de janeiro de 2017)

MORSE: Muito se fala da Apple entrar no mundo dos smart-glasses, mas com óculos de VR, ligados ao celular. Qual a sua visão sobre competição? Stephen Lake: Eu olho para a Tesla como exemplo. Eles lideraram desde muito cedo o mercado de carros elétricos. Eles criaram uma ótima marca e agora os grandes fabricantes de automóveis puderam entrar com suas próprias abordagens na categoria. Existem muitos paralelos com o que estamos fazendo.  (Entrevista ao site Wearable em 8 de outubro de 2019)

MATERIAIS GRATUITOS

MORSE YEARBOOK

Veja o que o futuro da tecnologia mobile reserva para os próximos anos.

RECEBA NOSSO CONTEÚDO