O Pai do WeChat, agora em português!


O Ghost Interview de hoje foi atrás do executivo chinês que muitos daqui querem imitar (sim, Zuck, estamos falando com você!): Zhang Xiaolong (para os ocidentais, Allen Zhang). Sabe de quem estamos falando?! Do criador do WeChat! Fã de Steve Jobs e dos princípios minimalistas de Jony Ive, Zhang foi “o cara” por trás do desenvolvimento e da evolução do superapp chinês desde 2010.


Diferente do que costumamos falar por aqui, Zhang não é CEO ou fundador, mas ele é visto como um, já que a maneira que ele criou o WeChat foi “separando” um time dentro da própria Tencent e colocando o seu aplicativo para competir internamente com outros produtos da gigante chinesa. O app, que chegou a 1,2 bilhão de usuários mensais ativos no último ano, foi responsável pela mudança de todo um país com relação ao Mobile. Para o Brasil, no entanto, Zhang é uma figura pouco conhecida. Até agora...



MORSE: Zhang, a primeira pergunta vai direta assim como um áudio no seu app: como o WeChat começou e para onde vocês ainda querem ir?

Allen Zhang: Muitos já devem ter escutado essa história, há alguns anos, eu mandei um e-mail para Pony [Ma, o CEO da Tencent] sobre criar o WeChat. Mas antes disso, a ideia para o aplicativo já estava rolando na empresa. Um ano antes do lançamento do WeChat [em novembro de 2010], eu e minha equipe tínhamos feito o QQMail o provedor de e-mails mais popular da China. A partir de então, tentamos vários outros tipos de mensageria dentro do próprio e-mail.

Muitos dos nossos primeiros produtos do WeChat tem alguns traços do QQMail, como as assinaturas. Fizemos experiências com diferentes métodos de interação social dentro de uma aba do QQMail, mas no final das contas, eram apenas features dentro da ferramenta principal que era o e-mail. Então chegamos num ponto que entendemos que existia um limite para a inovação dentro dessa plataforma e era hora de mudar de direção.

Eu tinha um pensamento simples na época: fazer uma ferramenta de comunicação para eu e outros usarem no smartphone. Coincidentemente, havia um time desenvolvendo a versão mobile do QQMail, então nos juntamos para começar o WeChat. Somando o time de back-end e front-end, UI, eu mesmo e um recém-graduado, meu time tinha 10 pessoas no total. Com autorização do Pony Ma, a gente foi destacado para criar o app, o que foi feito em dois meses.

Na época do lançamento, a gente tinha apenas um princípio: se o produto não consegue crescer naturalmente, não deveríamos fazer propaganda. Nos primeiros cinco meses, nós não promovemos o app, nós queríamos entender como os usuários eram atraídos para o WeChat sozinhos, se as pessoas iriam promovê-lo. Quando a versão 2.0 foi introduzida, vimos crescimento de usuários, não era um crescimento rápido, mas estava sendo natural. Naquele momento, sabíamos que poderíamos começar a publicidade e o marketing dele.

Quando chegamos a um bilhão de usuários diários únicos [marca batida em 2018], nosso time não comemorou. Todo mundo sentiu que chegar no bilhão seria apenas uma questão de tempo.

(...)

Qual é o sonho do WeChat? Do ponto de vista do usuário, é ser a melhor ferramenta para o seu dia a dia. De um ponto de vista de plataforma, é criar um marketplace que abre espaço para que criadores e empreendedores produzam valores para outros usuários.

Entre uma parede sólida e um ovo que se quebra ao bater contra essa parede, nós sempre estamos do lado do ovo. Se você faz algo tão grande que pode interferir na vida dos usuários e não traz valor algum para ele, o WeChat vai limitar você; se não, o WeChat vai te apoiar.

Fonte: Discurso da WeChat Open Class de 2019 adaptado pelo China Internet Watch, publicado em 10 de abril de 2019


MORSE: Um dos pontos que fez o WeChat destoar dos seus concorrentes foi a possibilidade de enviar mensagens de áudio e depois a de aceitar pagamentos. Como você vê isso no contexto do poder do Mobile? Você vê uma possível migração do WeChat para se tornar um sistema operacional?

Allen Zhang: Como você usa o WeChat determina o que é o aplicativo para você.

Se você quer saber sobre a natureza da internet mobile, ela está relacionada aos sensores. Quando fizemos o slogan do WeChat, chegamos na ideia de que o WeChat é um estilo de vida. Mas eu também penso, hoje em dia, que o WeChat é um sexto sentido dos usuários. 

Fonte: Entrevista ao chinês GeekPark em 5 de março de 2013


Allen Zhang: No passado, quando comecei a programar em tecnologia, eu fazia programas para um sistema de software. E não importa o quanto fosse complicado o sistema, a estrutura principal para eles eram os mesmos dois elementos: objetos e mensagens. Não importa o quão complicado seja o sistema, ele sempre consiste em vários objetos e a comunicação entre eles feita a partir de mensagens.

Na sua origem, o WeChat é um sistema de mensagem. Mas com o seu desenvolvimento, passo a passo, os objetos poderão criar e conectar informações. Não é possível limitar o WeChat, podemos ser um sistema operacional e uma plataforma onde todas as pessoas, coisas e eventos são objetos e mensagens num mesmo canal. 

Fonte: Entrevista ao chinês GeekPark em 4 de março de 2013


MORSE: O WeChat foi fruto da competição interna dentro da Tencent, mas também mudou bastante por causa da alta competitividade do mercado chinês. Você mesmo falou que se o WeChat não se tornasse uma plataforma, vocês iriam morrer. Como você vê esse mercado e como os mini-programs entram nessa ideia de fortalecimento do ecossistema?

Allen Zhang: Algumas pessoas acham que podem prosperar melhor com o monopólio, seja ele nos recursos ou no marketing, o que até pode ser verdadeiro em algumas circunstâncias. Mas a internet é aberta, transparente e completamente competitiva. Até um produto de escala menor que tiver uma experiência melhor para o usuário pode ser aceito e os clientes vão migrar.

De fato, a Tencent também compete com muitos outros produtos, como o QQ e o MSN. O WeChat é um produto competitivo. E se ele não fosse da Tencent, essa competição existiria de qualquer forma. Apenas a competição pode criar melhores produtos.

O WeChat tem uma plataforma aberta [chamada de “WeChat Official Accounts Platform”], assim os terceiros podem acessar e esse é o nosso maior ponto de abertura. Essa é uma ideia para cobrir não só a capacidade de comunicação de pessoas, mas também de empresas. Cada companhia tem sua quantidade de usuários e eles precisam chegar nesses clientes ou se conectar com eles. O WeChat proporciona essa experiência para as empresas, numa plataforma bem aberta. 

Fonte: Entrevista à Forbes China republicada pelo iFeng, da Phoenix New Media, em 13 de janeiro de 2014


Allen Zhang: Para mim, a descentralização trazida pelos mini-programs vai criar um ecossistema de longo prazo. Se a gente não descentralizasse, a Tencent teria monopolizado os mini-programs, mas a gente não teria o poder dos desenvolvedores externos. No curto-prazo, a Tencent teria lucro no curto prazo, mas perderia todo o ecossistema no longo [prazo].

Fonte: Adaptação do discurso dado na conferência do WeChat de 2018 pelo site da Andreessen Horowitz


MORSE: Apesar de você não ser o CEO da Tencent, seu papel de líder do WeChat te coloca num ponto parecido de um CEO de startup, qual a sua visão sobre a ação da liderança e dos “c-level” no processo de inovação?

Allen Zhang: Você levanta uma grande questão sobre o mecanismo da inovação. Eu mesmo tenho pensado nisso, para evitar me transformar em um gargalo de inovação. Eu acho que é mais como um ciclo. Nas fases iniciais, dominei todos os principais aspectos do design [do app]. Ainda éramos uma equipe pequena, e eu costumava sentar com eles para discutir soluções e melhorias. A gestão era mais horizontal. Os Mini-Programs, por outro lado, foram completamente top-down [decisão “de cima para baixo” na empresa]: os esforços foram liderados unicamente por mim, para ajudar na sua execução como um sistema massivo. Obviamente, espero mais inovações bottom-up no futuro. A maioria pode falhar, mas é ótimo, mesmo que apenas algumas sobrevivam.

Em particular, estou incentivando a inovação nas ofertas do WeChat. Por exemplo, dei à equipe do Top Stories autoridade total para tudo o que eles desejam experimentar, sem pedir permissão.

Mas a liberdade de inovar também significa a de assumir a responsabilidade. Já vi equipes passarem de totalmente autoconfiantes para o completo pânico exatamente no momento em que sabem que a criação delas é de sua total responsabilidade. Há dois anos, uma equipe [do WeChat] estava trabalhando em um recurso para o usuário explorar as proximidades no aplicativo, mas estava lutando para desenvolver um bom plano. Eles me abordaram com uma proposta que afirmavam ser a melhor que poderiam apresentar. Eu a teria rejeitado imediatamente, mas não queria ser muito “mandão”, então disse a eles para seguirem em frente com a proposta, disse para a equipe escolher uma ou duas cidades-piloto para um lançamento inicial, para, então, entender como o recurso se desenrolava. Eles recuaram. Responsabilidade faz a diferença.

(...)

Empresas digitais sempre querem ficar longe de funcionários e colaboradores que apenas acatam ordem sem criatividade. Isso é especialmente verdade quando falamos de uma companhia multifacetada, onde a ordem é passada de camada a camada. Em um time pequeno, com menos de 100 pessoas, não há necessidade de ser obediente porque todo mundo pode participar das discussões no dia a dia. Eu sempre quis continuar essa tradição que veio desde o começo do WeChat, de juntar os gerentes de produto da “linha de frente” em discussões comigo.

Dito isso, a grande diferença nos níveis hierárquicos pode ser complicada, porque alguns “frontliners” podem se sentir intimidados e muito tímidos para se expressarem. Eu tento encorajá-los a falar. E não é uma contradição, porque eu sempre digo para o time não tomar as discussões feitas sobre produtos pessoalmente, isso ajuda eles a deixarem os títulos e o nível hierárquico de lado e focar nos problemas. Claro que não é todo mundo que consegue fazer isso, principalmente aqueles com menos experiência, que tendem a se apegar emocionalmente de maneira mais fácil. Quando eu rejeito propostas dessas pessoas, eles normalmente levam para o lado pessoal e não conseguem se ater aos fatos. Assim, eu tenho tentado advogar em favor da abordagem de “resolver problemas sem emoção”, assim mais colegas podem se sentir livres para falar.

Fonte: Entrevista ao site da London School of Economics em 27 de setembro de 2019


MORSE: Zhang, você já foi comparado ao Steve Jobs por, diferente de seus colegas, sempre pensar em todos os detalhes do produto antes de lançar. Você pode dar um exemplo disso?

Allen Zhang: Toda vez que recebo um push ou uma mensagem que diz “essa ação foi completada com sucesso” ou “a mensagem foi enviada com sucesso”, eu me incomodo com a expressão “com sucesso”. Eu disse isso para o meu time, o que fez eles removerem essa expressão de todos os processos do WeChat. Alguns dizem que isso mostra o quanto eu sou detalhista com as palavras, extremamente detalhista até. Mas eu me defendo: quando você lê que uma mensagem foi enviada com sucesso, faz você pensar que existem outras que não foram entregues dessa forma. Esse é um tipo de dúvida que não quero criar. 

Fonte: Post em seu microblog, Fanfou - que depois foi substituído pelo Weibo - em 17 de janeiro de 2011


MORSE: Você se diz um observador de tendências, então queremos saber o que o futuro reserva para o WeChat e para o Mobile?

Allen Zhang: Primeiro devo dizer que o WeChat com certeza será desafiado no futuro. O WeChat encontrou uma oportunidade quando a indústria passou do PC para o smartphone, o que acabou sendo um sucesso. Eu não acho que um produto do mesmo tipo será uma ameaça para a gente, mas vejo ameaça vindo a partir de alguma demanda tecnológica emergente dos usuários que a gente falhe em satisfazer. Um grande desafio para a gente no futuro poderá vir também de um novo device de comunicação, algum sistema que substitua a interação atual de humanos e máquinas que é a do smartphone. Mas isso é bem lá na frente. Tenho em mente que o estilo de vida das pessoas muda rapidamente. Na China a gente costuma dizer que uma década significa uma geração, mas agora está mais para três ou quatro anos. Eu não tenho ideia de quanto os usuários vão mudar no futuro e quais serão as suas necessidades.

De qualquer forma, tenho algumas apostas. Uma delas é na vida virtual. Acredito que daqui a 20 anos, as pessoas podem ser mais dependentes de uma vida virtual, onde a maior parte do seu consumo será feito online, nesse espaço virtual. No momento, a VR (Realidade Virtual) só consegue animar videogames - mas lembre-se, esse é um setor que se tornou enorme na Tencent e nos traz bastante receita, já que os jogadores estão dispostos a gastar dinheiro em roupas virtuais mais do que compram em uma loja grande de roupas.

Esses usuários já gastam mais de metade do dinheiro em roupas virtuais no lugar de roupas reais. Gradualmente, os consumidores vão gastar mais dinheiro em games e mundos virtuais. Eu acredito que a VR será, provavelmente, o nosso futuro. 

Fonte: Entrevista ao site da London School of Economics em 27 de setembro de 2019


MORSE: Zhang, você é conhecido por dar poucas entrevistas e por falar pouco com a imprensa de maneira geral, por isso queremos saber: você tem alguma última palavra para a gente aqui do Ghost?

Allen Zhang: A última coisa que quero dizer é: “tudo que falei está errado”. Isso é para dizer para todo mundo que o que eu disse até agora não deve ser levado como verdade. De fato, esse é um lema familiar, significa que você sempre pode achar evidências para me contrapor. Dogmas são desnecessários e eu normalmente não gosto de compartilhar meus pensamentos em muitos lugares porque nem sempre o efeito de compartilhar é o melhor. Muito pelo contrário, acredito que a conclusão e a verdade de cada um são próprias. 

Fonte: Apresentação interna publicada pela Business Value Magazine e republicada pelo blog da revista em 30 de julho de 2012

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