Os bastidores do WWDC!

Na semana que a Apple faz seu principal evento (online, mas ainda assim, principal) para desenvolvedores, é difícil fugir da Maçã. Por isso, o Ghost Interview abraçou o iPhone e foi direto para os principais líderes da Apple enquanto eles estavam descansando das apresentações da WWDC: Craig Federighi, Vice-Presidente Senior de Software e Eddy Cue, Vice-Presidente Senior de Internet Software e Serviços. 


Tanto Eddy quanto Craig são executivos de longa data da Apple - Craig, inclusive, chegou a trabalhar com Jobs no NeXT, projeto que foi vendido para a empresa de Cupertino - e têm papéis chave no novo posicionamento da companhia. Craig chefia o iOS e a Siri, e Eddy a área de serviços (principalmente de streaming de vídeo e música), se você lembra dele, é porque ele já fez uma aparição no Ghost, lá no segundo, quando falamos de Jimmy Iovine - foi Cue o responsável por fechar o acordo com a Beats. De qualquer forma, neste Ghost eles comentam um pouco sobre os passos que levaram a Apple até o momento atual:


No final de 2018, o Tim Cook anunciou que a Apple iria parar de divulgar os números de venda de iPhone. Para muitos, isso significou o passo que a empresa tomou em favor de serviços. Para outros, no entanto, isso mostrou que o iPhone pode ter perdido importância como device para a Apple. Qual a importância do iPhone para a Apple, Craig? Craig: O telefone é uma plataforma onipresente que entrega capacidade para os usuários. É a melhor oportunidade para a gente inovar, e a maior e melhor oportunidade para nossos desenvolvedores inovarem no nosso ecossistema. Ainda é um pilar do que fazemos, pelo que consigo ver. Não é o nosso único pilar, mas segue sendo a maior oportunidade que temos para criar valor para os nossos usuários. (Entrevista à Fast Company em 8 de outubro de 2016)


Eddy, vamos na pergunta mais difícil: a Apple costuma fazer aquisições estratégicas. Antes de lançar o News+, vocês compraram a Texture, por exemplo. Por que, raios, vocês não compraram a Netflix? Eddy: De maneira geral, na história da Apple não fazemos grandes aquisições, apenas pequenas. Tentamos seguir aquela velha premissa de "ir para onde a bola está indo e não para onde ela está".  Estamos “all in” em conteúdo, mas não estamos indo atrás de quantidade e sim de qualidade. 

Existem formas de trazer tecnologia para melhorar a experiência de ver um conteúdo e é isso que queremos fazer.  (Entrevista à CNN durante o SXSW de 2018 em 12 de março de 2018)

Eddy: O lema da Netflix é criar muito conteúdo, assim o usuário tem sempre algo para assistir e é algo que está funcionando. Não há nada errado com esse modelo, mas não é o nosso modelo. (Entrevista ao The Times em 29 de junho de 2019)


Mas você não pode negar o que muitos dizem: que a Apple chegou tarde nas “streaming wars”.... Eddy:  O jeito de assistir à televisão vai mudar significativamente nos próximos 10 anos. Com essas transformações, aparecem as oportunidades, porque os serviços serão substituídos por formas diferentes de entretenimento. E essa é a oportunidade que vemos. Nós queremos, também, ajudar os players existentes. Então, sim, há pessoas que dizem que a Apple foi mais lenta [no streaming] - mas, para dizer a verdade, nós fomos mais rápidos, falamos para aqueles que faziam streaming “você tem o conteúdo, você tem o relacionamento com o consumidor, vamos garantir que as suas aplicações te deem acesso ao consumidor.  E se você quiser vender algo ao cliente, também o ajudaremos, pois temos um mecanismo que facilita o pagamento”. O próximo passo, quando você tem todos esses aplicativos, é criar uma experiência centralizada. E é daí que o nosso app de TV vem.  (Entrevista ao site LiveMint em 16 de outubro de 2017)


Muitos dizem que a Apple, o Google, a Amazon e o Facebook são a mesma coisa e eles estão todos atrás do mesmo objetivo: manter o usuário com eles durante todo o dia… Eddy e Craig, juntos: Não vemos dessa forma.

Eddy: Não podemos ser tudo! Uma das razões para o sucesso da Apple é que nós focamos em alguns produtos e serviços. Então não queremos ser a Amazon ou o Facebook ou o Instagram e por aí vai. Por quê?  Ou Uber. Por quê? Eu acho incrível o que o Travis e o seu time fizeram com o Uber na nossa plataforma. O Uber não existiria se não fosse a nossa plataforma. Mas eles que resolveram esse problema. Nós nunca o teríamos resolvido já que não estávamos olhando para ele.  (Entrevista à Fast Company em 8 de outubro de 2016)


Craig e Eddy, vocês têm carreiras longas dentro da Apple e recentemente, trabalharam juntos no projeto do Maps. E este foi um app que, logo depois do lançamento, foi bastante criticado pelo público. Como foi o processo de desenvolvimento do Maps, ele foi parecido com o que fizeram no passado? 

Craig: Mais do que deveria ser. O Maps é um enorme problema de integração e de qualidade de dados. O Eddy pode falar sobre a grande quantidade de dados que a gente precisa para fazer o Maps. Você junta dos provedores de dados, e algumas destas informações estão mudando todos os dias.


Eddy: Sim, algumas delas nem estão mais certas.


Craig: E há muita inconsistência nestes dados. Você pode ter um feed de um provedor que tem apenas informações sobre restaurantes, por exemplo, e eles vão se referir aos locais numa forma diferente, em termos de latitude e longitude. E ainda há uma questão importante de qualidade de dados aqui, e eu não acho que a gente estimava a quantidade de tecnologia que a gente precisaria para fazer [os Maps] continuamente. Passar por essa lição de maneira bastante pública nos deu a motivação que precisávamos para, de fato, melhorar os processos.  (Entrevista à Fast Company em 8 de outubro de 2016)


Mas houve mudanças nesse processo de desenvolvimento e de feedback por causa do Maps? Eddy: Nós fizemos mudanças significativas em todo o nosso processo de desenvolvimento por causa dos mapas. Por exemplo, a razão do usuário hoje em dia conseguir testar o iOS, é por causa dos Maps. Nós nunca tínhamos conseguido fazer ´[um teste] com grandes números de usuários para obter o feedback. Então, para a gente, vivendo e testando o Maps em Cupertino, o app parecia bastante bom, certo? Os problemas não eram óbvios para a gente. Hoje em dia temos muito mais betas.  (Entrevista à Fast Company em 8 de outubro de 2016)


Craig, você sempre comenta do caminho que a Apple tem tomado para discutir a privacidade, mas e o outro lado, o que os usuários falam para você?  Craig: Eu recebo e-mails de clientes dizendo ‘eu tenho certeza que este app popular está secretamente me escutando. Eu estava falando sobre tal coisa e o ad sobre ela apareceu”. Em muitos casos, isso, de fato, não está acontecendo. Nós sabemos que não está acontecendo. Mas os usuários acreditam que sim. Por isso é importante o passo da transparência e para mostrar, por exemplo, o indicador de gravação em cima da tela, para o usuário saber se o aplicativo, naquele momento, está acessando a câmera ou o microfone.  (Entrevista à Fast Company em 22 de junho de 2020)


No ano passado, o CEO do Google escreveu um artigo no New York Times dizendo que a privacidade não deveria ser um “luxo apenas para pessoas que podem comprar um produto premium”, qual a sua opinião sobre isso?

Craig: Eu não compro essa ideia de “objeto de luxo”. 

Por um lado, é gratificante que outras empresas tenham começado a falar positivamente sobre se preocupar sobre privacidade nos últimos meses. Eu acho que é um assunto mais profundo do que apenas meses de releases e falas na imprensa, você precisa olhar fundamentalmente para as culturas, para os valores e os modelos de negócio internos. E isso não é algo que mude do dia para a noite.   (Entrevista ao The Telegraph em 27 de maio de 2019)


E com relação aos dados, Craig: o que significa a política de “data minimization” da Apple? Tenta explicar para a gente de uma maneira mais simples... Craig: Os algoritmos de machine learning precisam de dados para aprender. E há essa ideia de, se você não tem o dado, como irá fazê-lo aprender? Bem, o que a gente descobriu, é que se um algoritmo precisa entender sobre montanhas, ele não precisa entrar nos álbuns de fotos pessoais das pessoas no celular. Nós descobrimos que poderíamos usar outras fotos de montanhas - a gente teve que pesquisar muito para achar essas fotos…De maneira geral, é isso que significa o data minimization. (Talk Show dentro da WWDC de 2016, em 18 de junho de 2016 - tradução feita a partir desta transcrição)


Se a ideia é diminuir a coleta de dados, mas vocês continuam tendo que captar para serviços como os Maps, que vocês mesmos comentaram que precisa de uma quantidade grande de dados (inclusive de mobilidade do celular), como fica o equilíbrio?  Craig: O que fazemos agora é distinguir o que é informação pessoal e o que não é. Seu dispositivo pode aprender seus padrões de deslocamento, pode aprender quando você vai para o escritório e quando vai para casa, para que, localmente, no telefone, possa dizer que você precisa sair mais cedo, porque há muito trânsito no caminho. Bem, isso é algo pessoal e fornece valor para você, mas não queremos que a Apple saiba quando você vai trabalhar. Portanto, mantemos essa inteligência no dispositivo, mas podemos rastrear anonimamente coisas como padrões de tráfego. (Entrevista à Fast Company em 8 de outubro de 2016)


A última pergunta é para o Craig, dentro do mundo de “edge computing”, ou computação no próprio device. Nesta semana, a Apple anunciou a tela de Home “inteligente”, como isso é feito, sem a coleta de dados? Craig: Os chips que estamos colocando no iPhone e no iPad [chips estes que, em 2020, serão produzidos pela Apple] são capazes de processar inteligência artificial no device. Então nós conseguimos levar tarefas que antes necessitavam de grandes servidores para dentro do próprio device. Quando se trata de informação pessoal, o seu dispositivo é realmente o melhor lugar para rodar essas tarefas. 

Eu acho que, no final das contas, a tendência vai ser mais e mais da inteligência ficar no device, e não só pela questão da privacidade, mas também da disponibilidade. Você quer que certos serviços no seu celular funcionem sempre, não só quando você tem uma conexão boa.  (Entrevista ao The Telegraph em 27 de maio de 2019)

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