Desvendamos o mistério da Palantir

A Palantir está  se preparando para abrir capital. O Ghost Interview se preparou para abrir a tal caixa-preta da principal empresa de análise de big data de agências como CIA e FBI (que pode ter valuation de até US$ 41 bilhões), e fomos direto para as fontes: Peter Thiel e Alex Karp, mais conhecidos como chairman e CEO da Palantir


Criada pela dupla improvável (Karp é um PhD em filosofia e Thiel, bem, vocês sabem quem ele é, né?) em 2004, a Palantir contou com investimento inicial da In-Q-Tel - codinome dado ao braço de Venture Capital da CIA.  Aqui não dá para não imaginar uma batcaverna ou então uma casa em forma de disco voador encravada numa montanha, certo? A ideia da empresa era “simples”: levar a análise de dados antifraude para o governo, que acabou usando-a também como forma de detectar terrorismo. O que significou, por um lado, contratos milionários, por outro, um número enorme de cláusulas de sigilo - tantas, que Karp não pode nem mesmo confirmar um boato extremamente positivo para a reputação da Palantir (que eles foram usados na xxxxxxxxxxxxxxxxxx - CENSURADO PELA CIA). O que dá a empresa a alcunha de “mais misteriosa do mundo”. Afinal, o que a Palantir faz? No que ela acredita? E qual é a desse nome? Pegue seu café ou martini (batido, não mexido) e segue essa Ghost:



MORSE: Essa pergunta vai para o Thiel: como começaram a Palantir, e o que ela tem a ver com a PayPal (a sua empresa mais conhecida)?

Peter Thiel: Existe um elo tecnológico enorme entre as duas companhias. Nós tínhamos um problema com fraudes na PayPal e tínhamos que separar times de até 20 pessoas para investigar cada caso, procurando agulha no palheiro. Eles não conseguiam encontrar nada no meio de milhões de transações. Nós resolvemos isso complementando a investigação com um programa. A Palantir tem a mesma tecnologia, mas no contexto ‘antiterrorismo’. (Entrevista ao Vox em 14 de novembro de 2014)

MORSE: Alex, como a análise de dados pode ser usada para combater o terrorismo, e o que a Palantir faz?

Alex Karp: Depois do 11 de setembro, se tinha a ideia de que o Vale do Silício precisava se envolver na luta contra o terrorismo e em favor da proteção das nossas liberdades civis.

O terrorismo é assimétrico. A assimetria pressupõe software porque você está procurando uma agulha no palheiro, e um programa que se valha de data mining, não como estava sendo usada na época, mas de uma forma diferente, como a PayPal já usava. E achamos que a approach que a PayPal usava seria eficiente neste contexto [contra o terrorismo], porque ele ia fazer duas coisas: ia permitir que humanos achassem a tal agulha no palheiro, ou seja, deixar o dado inteligível para cada um (coisa que ele não era) e ao fazer isso, ia permitir que eles encontrassem os ‘bandidos’.

Alguns falam que é data-mining, mas é um approach completamente oposto ao data-mining. Já que o “data-mining” usa um algoritmo em uma base de dados enorme. E o que nós fazemos é uma “predictable-based search”. Então, nós olhamos para você, e conseguimos dizer que existem pontos diferentes do seu comportamento que indicam que você pode estar ligado a alguma atividade negativa. (...) Basicamente, proporcionamos que eles [governo] consigam descobrir padrões de comportamento.  (Entrevista ao programa do Charlie Rose em agosto de 2009)

MORSE: Existe uma crítica importante feita a este tipo de análise, como se vocês tivessem prevendo o crime, o que acha sobre isso? 

Alex: A crítica gera é que você vai se mover de uma análise previsível - mais conhecido como “eu tenho uma suspeita”, para uma análise não-previsível “eu não tenho suspeita, mas eu posso descobrir se você está envolvido num crime baseado em um padrão que você está me mostrando”.

A realidade é que existem tipos de ataques terroristas ou de criminalidades que exigem o segundo tipo de análise. Se você olha para um ataque terrorista no Iraque, você não pode contar apenas com as suspeitas e os previsíveis. Você precisa ter um outro tipo de análise para poder captar os padrões, o que permite que você ache as pessoas e entre no detalhe. 

O que é um problema é quando não é claro no sistema quais são os critérios para esses tipos de análise.  (Entrevista ao Wall Street Journal em 3 de novembro de 2014)

MORSE: Um dos pontos que a Palantir defende é que vocês integram dados estruturados e não estruturados de várias agências de governo em um único espaço. O que vocês descobriram durante os primeiros anos de trabalho?

Peter Thiel: O governo estava coletando dados demais [na guerra contra o terrorismo], muito mais do que eles podiam analisar. Se a gente pudesse ajudá-los a trazer sentido para  aquela quantidade toda de dados, eles poderiam diminuir a vigilância indiscriminada. (Entrevista à revista Fortune em 9 de março de 2016)


MORSE: Há alguns anos, surgiu uma questão da NSA, inclusive, com os dados vazados por Edward Snowden …

Peter: Eu tenho uma visão diferente sobre as revelações do [Edward] Snowden. Eu acho que ela mostrou a NSA mais como “policiais caricatos” do que como um Big Brother. O que me impressionou é o quanto essas coisas são tão pouco “James Bond” e o quão pouco foi feito com essas informações. Por isso que eu acho que, de alguma forma, a NSA é muito mais uma “área anti-tecnológica”, onde eles não sabem o que fazer com os dados que acharam. Eles apenas acumulam os dados. Eu acho que foi novidade até para o Obama que eles estavam escutando o celular da Angela Merkel.

Se os burocratas da NSA soubessem o que estavam fazendo, eles provavelmente precisariam de menos informação. 

(...)

Eu acho que Big Data é uma dessas “palavras-chave” que, quando você escuta, você quase pensa que é fraude, porque o problema é achar o sentido no dado. O problema é fazer o dado ficar pequeno. É esse o desafio principal, e não coletar mais e mais dados. (Entrevista ao Vox em 14 de novembro de 2014)

MORSE: A gente chegou a falar sobre isso no Morse, sobre o quanto as empresas não precisam captar tantos dados para obter inteligência. O mesmo serve para o Governo e até para policiais, Alex? E como fica a privacidade das pessoas?

Alex: Um gerenciamento de dados altamente competente não exige uma redução dos nossos direitos de proteção e privacidade. 

(...) É possível ter uma estratégia de prevenção de crimes e ficar dentro do limite do aceitável [no sentido da coleta de dados]. O modo como isso dá errado no contexto do antiterrorismo é que há tanta incompetência com os dados que eles dizem que precisam de todos os dados. Talvez só precisassem de um décimo, ou de um por cento do que achavam. Uma coisa que a Palantir consegue fazer é construir uma arquitetura e mostrar às pessoas que elas não precisam de tantos dados quanto pensam para alcançar um objetivo.  (Entrevista ao programa da Axios na HBO, episódio 7 da 3ª temporada, veiculado nos Estados Unidos em 24 de maio de 2020)


MORSE: Não vamos ficar nas perguntas fáceis. No último ano, vocês sofreram duras críticas por prover o software para o controle de imigração e fronteira dos Estados Unidos. O contrato foi fechado durante a presidência do Obama, mas vocês mantiveram mesmo entendendo que o governo Trump usou as informações para dividir famílias de imigrantes ilegais. Qual a sua posição sobre isso?

Alex: Há questões importantes dentro do nosso trabalho [com os governos]: sob quais condições você pode usar o software, o que pode ser rastreado, como a execução desta vigilância é feita, como o dado é gerenciado e quais são as consequências dessa vigilância. Eu acredito que cada uma dessas questões deve ser respondida e decidida pela sociedade, num debate aberto e a execução disso tudo deve ser clara e transparente. 

Eu não acho que essas questões precisam ser decididas no Vale do Silício, por um grupo de engenheiros em companhias que detêm grandes plataformas. São questões muito sérias, que tem consequências em todas as nossas vidas, de uma maneira bastante significativa agora e no futuro. 

Nós queremos que um bando de pessoas do Vale do Silício, que constroem plataformas, decidam quais são as instituições que funcionam? Sob quais condições? Quais são as melhores execuções [de regulamentações] e quais instituições não funcionam? Por aqui, temos a visão de que, em sociedades onde a democracia está funcionando - o que significa que existe um sistema de freios e contrapesos para as ações do governo, reforçado por um Judiciário forte - nós provemos o software. É uma posição radical para se tomar no Vale do Silício, inclusive, e é o que nos faz impopulares por lá.  (Entrevista à Bloomberg Politics em 22 de agosto de 2019)

MORSE: Alex, você já deve ter escutado muitas críticas por conta da atuação da Palantir, qual delas você acredita a mais importante? Sinceramente.

Alex: Que se você estiver envolvido em qualquer coisa que seja injustiça em qualquer grau, isso mancha tudo que você fez que foi justo e em prol da justiça. Vejo esta questão em tudo o que fazemos. Não só com o caso dos Imigrantes, mas com a Diretoria de Operações [da CIA]  também. Nosso produto, às vezes, é usado para matar pessoas. Em ataques [targeting] de um modo geral. Se você está procurando por um terrorista no mundo hoje, você provavelmente está usando o nosso produto e provavelmente irá conduzir uma operação para eliminar a pessoa.  (Entrevista ao programa da Axios na HBO, episódio 7 da 3ª temporada, veiculado nos Estados Unidos em 24 de maio de 2020)

MORSE: Por ser uma empresa que está no 50/50 de receita com contratos governamentais -  uma receita de mais de US$ 1 bilhão, devemos adicionar - como a mudança de presidência afeta a operação de vocês. Existe um ponto do sigilo, mas o que pode dividir que foi feito com o Palantir Gotham?

Alex: É engraçado porque, na maioria das vezes, a gente fala de coisas [que a Palantir fez] porque algo deu errado, ou tem alguém infeliz. Fico sabendo de tentativas frustradas de ataques terroristas na Europa barrados pela polícia por causa da nossa ferramenta, pelo menos uma vez por semana. E não são aqueles caricatos, que vemos na mídia, de ataques de radicais muçulmanos, mas também de pessoas da extrema direita atacando muçulmanos.  (Entrevista ao podcast inside.pod - der Podcast von Axel Springer, em 22 de janeiro de 2020)

MORSE: Vocês não atuam apenas em governos, mas com empresas também. Como foi a criação do Palantir Metropolis (software de análise de dados estruturados e não estruturados para companhias)?

Alex: Na verdade, tivemos um problema inicial quando lançamos o Metropolis, software que investimos bastante tempo e dinheiro - na verdade, investimos tempo demais nele, e ele foi um grandessíssimo e completo fracasso. Tivemos que tirar o produto do ar nos primeiros anos da empresa, e ainda tivemos que lidar com o fato de que nossa linha voltada para empresas não tinha um produto para vender, tivemos que achar um, levamos uns anos para achar um produto. E só agora conseguimos achar ele. (Entrevista ao podcast inside.pod - der Podcast von Axel Springer - Parte 2, em 23 de janeiro de 2020)

MORSE: Por fim, qual a explicação do nome “Palantir”?

Alex: Para aqueles que tiveram algum tipo de vida social no Ensino Médio, vocês podem não saber o que significa Palantir. Para nós que não tivemos uma vida social, a ligação com Senhor dos Anéis é imediata. A pedra Palantiri é uma “pedra visionária" em Senhor dos Anéis, ela permite que o Oeste se comunique com o Leste, que as forças do bem se comuniquem em longas distâncias. E pensamos que é um bom nome para um programa que permite que você enxergue no meio de grandes bases de dados, mas que não te deixa ver aquilo que não deveria ver - que é, basicamente, o que essas pedras fazem. (Entrevista ao programa do Charlie Rose em agosto de 2009)


MORSE: Uma pequena observação; esta não é a primeira empresa que o Thiel dá o nome inspirada em algum nome do mundo de Senhor dos Anéis. Por que, Peter?

Peter: Esses livros foram muito poderosos quando eu os li. Eu não quero exagerar a maneira com que [Senhor dos Anéis e JRR Tolkien] está enraizado nas minhas filosofias, muito como aquela frase de Lord Acton que diz que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. É um motivo central na literatura de Tolkien essa natureza problemática do poder.  (Entrevista à revista alemã Die Weltwoche em julho de 2018)

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